quinta-feira, janeiro 19, 2012



 Uma Nova Realidade






  Abri meus olhos espantada, eu estava em uma cama de hospital com um tubo de soro atravessado em minha pele. Olhei para mim mesma e eu estava com uma roupa branca, uma roupa que os hospitais põe nos pacientes. Olhei para o quarto em que eu estava, ele era claro, as paredes eram de duas tonalidades, embaixo azul bebê e acima um branco já vívido. Havia uma janela no lado direito onde minha cama estava, com a vista para o estacionamento, com um sol radiante e um céu de um azul inacreditavelmente perfeito, eu me perguntei como o céu e o sol poderia estar tão feliz, tão perfeito em um momento tão pertubardor e tão infeliz como esse. Como tudo consegue ser tão vivo e alegre? Eu estaria errada pelo telefonema que recebi hoje? Será que fez parte do meu sonho? Não, se fosse por que eu estaria aqui? Por que eles não estão aqui? Se eles não se foram, se isso fosse mesmo um sonho por que eu me sinto tão vazia e por que as batidas do meu coração estão tão pesadas? É, não foi um sonho. Foi real.
  Aquele quarto tão "alegre" parecia assustador agora, qualquer coisa alegre me deprimia e me destruia ainda mais por dentro. Mais lágrimas vieram de meus olhos, elas desceram lentamente, eu olhava para um canto do quarto, era o canto onde a luz do "traidor sol feliz" não alcansava, eu desejei estar lá, por mais ridículo que pareça aquele lugar era o único que estava como eu, vazio e escuro. Mais lágrimas insistiram para cair, eu não queria impedilas de cair, não iria guardá-las para mim, logo meus olhos estavam cheios de lágrimas, eu mantive meus olhos no canto escuro, cenas do acidente de meus pais vieram em minha mente, eu estava atordoada com aquelas imagens, levantei meu corpo ficando sentada na cama, abraçando minhas pernas e colocando meu rosto entre elas, só deixando meus olhos livres para fitar o canto escuro, enquanto mais lágrimas e mais lembranças vinham.
  Ouvi a porta se abrir e meus olhos rapidamente olharam, havia uma mulher de pele clara, cabelos lisos e pretos, eles estavam presos em um rabo de cavalo, seu rosto era lindo e  angelical, seu olhar era afetuoso e gentil, ela não era nem alta e nem baixa. Usava um vestido rosa-bebê floral até os joelhos, com um salto aberto, não muito alto. Era minha tia Luana, ela era a irmã de papai, era a minha melhor tia, as outras não se enteressavam muito em mim, elas só pensavam em compras, viajem e arranjar homens que fossem ricos, outras eram mais esnobes, mas já eram casadas e pelo que eu sei nunca traíram seus maridos com outro alguém. Tia Luana era como uma amiga, conversavamos sobre tudo, com ela e mamãe não haviam segredos, ela era minha segunda mãe, geralmente isso é papel da avó, mas a minha havia morrido antes de eu nascer.
- Bella! -titia abriu um enorme sorriso ao me ver, mas seus olhos estavam preocupados e tristes- Você acordou, como está? -ela veio em minha direção e me abraçou, eu não respondi, apenas a abraçei mais forte e deixei as lágrimas cairem-
Tia Lu nada disse, ela me deixou chorar ao contrário do que os outros fariam, eles diriam para eu não ficar triste, tentar me animar, mas nada funcionaria, titia me entendia, ela me deixava chorar quando precisava chorar, ela não precisava dizer nada, apenas me abraçar e ficar lá comigo e dizer o que ela sempre dizia, e eu ficava confiante com suas palavras, era só disso que eu precisava, compreensão e amor. Eram as únicas coisas que eu mais precisava naquele momento além de chorar.
-Tudo vai melhorar, eu prometo! -eu queria muito acreditar em suas palavras, mas elas pareciam bobagens, pareciam tolices, parecia improvável-
-Como? -eu disse com a voz falha e baixa-
-Eu não sei, mas vamos encontrar uma saída, vamos sair dessa juntas. -queria muito acreditar nela, mas mesmo com muito esforço eu não conseguia-
Eu suspirei e saímos do abraço, ela enchugou minhas lágrimas e depois enchugou umas lágrimas que ameaçavam sair de seus olhos.
-Escute minha pequena, você é forte e vai superar essa, comigo, lembra do que eu te digo?
-Estamos juntas nessa! -nós dissemos juntas, e um sorriso ameaçava sair de meus lábios, mas não sorri, eu não queria sorrir. Parecia que sorrir era um erro agora-
Suspirei e olhei o canto vazio.
-Por que você não se deita? Você tem que descansar e não se esqueça que tem um tubo em seu braço, você não pode se mover muito. -disse titia adivertindo minha posição, eu estava sentada na cama e logo me deitei-
-Desculpe, é que.. -eu suspirei, não queria falar sobre isso, ela me entenderia, mas me olharia daquele jeito, aquele olhar de pena e tristeza, não queria que ela me olhasse daquela forma- O que aconteceu? Como vim parar aqui? -eu quis desviar do assunto, mas estava mesmo curiosa para saber como vim parar aqui-
-Bem, você estava em casa -ela disse se ajeitando ao meu lado na cama- com a Marcia a governanta, então o hospital ligou para sua casa, você atendeu o telefone esperando que fosse seus pais, eu acho, -ela olhou para mim para se certificar de que estava certa disso, eu apenas a olhei esperando que ela continuasse- quando você atendeu perguntaram pelo responsável e você disse ser, então eles lhe informaram sobre o assindente de seus pais. - eu já me lembrava dessa parte, a aflição e a dor me corroeram por dentro quando eu recebi a notícia, não estava tendo reação, me lembro de desligar o telefone e começar a chorar e então desmaiar, mas ainda não sei como vim parar aqui- Bom, o resto dessa parte você deve se lembrar, não é? -eu assenti e ela proseguiu- Então, Marcia a viu desmaiada e se desesperou, ela não sabia o que estava acontecendo, ela estava na cozinha organizando o  almoço de boas vindas para seus pais, ela correu até você e viu sua pulsação, então ela me ligou, eu me desesperei também e disse para ela ligar para o hospital, que eu a encontraria lá, pobre Marcia, tão aflita -titia disse olhando para o chão, provavelmente estava se lembrando de como Marcia estava, ela voltou a me olhar e a contar a história, meu rosto estava sem nenhuma expressão- Quando eu cheguei você estava aqui, sendo examinada, desacordada ainda. O médico disse que não era grave e disse que você precisava de soro pois estava muito fraca.
-Quanto tempo estou aqui? -eu perguntei a ela, não deveria ser muito tempo-
-A cerca de dois dias.
-Dois dias? -perguntei incrédula, eu já estava lá durante muito tempo, pude sentir minha boca aberta e titia a fechando-
-Meu bem, não se preocupe, você estava muito fraca e foi um grande choque você receber aquela notícia. -titia disse tentando me acalmar-
-Onde está Márcia? 
-Está em casa agora. Eu disse que ligaria para ela quando você acordasse, ela ficou aqui comigo até hoje cedo. -ela disse com um olhar de gratidão pelo ato de Marcia-
-Vocês dormiram aqui? -eu perguntei incrédula-
-Sim, dormimos. -titia me respondeu confusa-
-Você deveria ter ido para casa tia, não precisava ficar. -eu disse firme, mas meus olhos me entregaram, eu estava feliz por ela ter me esperado acordar e ter ficado aqui comigo, mesmo eu desacordada-
-Não se preocupe Bella, o que importa é que você está acordada e já saudável. -ela disse sorrindo e mais uma vez seus olhos tristes-
-É.
  Titia apertou um botão e logo uma enfermeira apareceu em meu quarto, ela era alta e morena, seus cabelos estavam perfeitamente alinhados em um coque, ela usava um vestido branco até os joelhos, era um vestido bonito para um uniforme de enfermeira, ela abriu um sorriso e veio me examinar.


Continua...

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